Essa é a quarta matéria sobre inovação e trata de um fenômeno muito relevante das novas tecnologias sobre a comunicação e comportamento.

Com o passar dos anos a internet se tornou imensa, tão grande que dá para se perder nela. Será mesmo?

A geração de conteúdo atinge escalas insanas em volume e velocidade sem precedentes na história da humanidade. Isso passa a sensação de impossibilidade em acompanhar tudo o que está acontecendo.

Por outro lado, os gigantes da internet que tem na publicidade grande parte de suas receitas, precisam cada vez mais avidamente de audiência.

Essa combinação de conteúdo abundante e necessidade de atenção crescente foi resolvida por empresas como Facebook, Google e Netflix através de algoritmos sociais que filtram o mar de informações e as direcionam para o público de acordo com seu perfil de interesses e consumo de conteúdo.

Parece perfeito, não é? Uma vez mapeados os gostos, hábitos e preferências, mais e mais conteúdo “relevante” associado a cada perfil de usuário é oferecido. Cada um de nós é exposto cada vez mais aos assuntos que queremos.

Mas nem tudo são flores. Há um preocupante efeito colateral dessa aparente panaceia da comunicação com impacto sobre os esforços de marketing.

Esse efeito é chamado de filtro bolha (Filter Bubble) e segundo alguns analistas tem grande parcela de responsabilidade em fenômenos recentes como a eleição de Donald Trump, O Brexit e a inédita e persistente cisão entre nós e eles na política brasileira.

A contradição é que a maior precisão e segmentação proporcionada por essa tecnologia acaba limitando o acesso a novas audiências. Se não nos expomos a nada novo nos tornamos inatingíveis. A reafirmação de ideias e pontos de vista acaba por nos isolar em um mundo de familiaridades e algumas vezes radicalismo.

No espectro empresarial relacionado a comunicação digital isso parece ser parte da causa em que grandes audiências não necessariamente se refletem em grandes vendas. Afinal, muitos que estão sendo impactados pela mensagem já são clientes e usuários da empresa anunciante e por isso tem baixa elasticidade de demanda.

Quando se busca escala, para muitas empresas o crescimento depende da expansão e renovação de sua base de clientes, mas se os conteúdos relacionados a seus produtos ou serviços só é apresentado para aqueles que já a conhecem e consomem, como expandir o market share?

Ninguém gosta muito da ideia de uma regulação governamental (talvez inevitável), por isso muitos nutrem a expectativa de que esse processo evolua para uma atitude mais crítica da sociedade e de cada indivíduo adotando estratégias que permitam sair dessa sedutora armadilha. Será?

Para os usuários uma estratégia disponível é o uso de VPN’s (Virtual Private Networks) que tornariam o perfil de usuário inacessível para as ferramentas sociais, gerando uma navegação livre e não tendenciosa.

Do lado dos anunciantes, uma das formas de furar essa bolha é combinar estratégias de comunicação digital com ações de comunicação em mídias clássicas, acessando públicos potenciais fora do domínio dos algoritmos e assim expandindo a audiência.

Como já disse em artigos anteriores (veja artigo em nosso blog: Comunicação online ou offline? Eis a questão.), parece que as empresas digitais já sabem disso, pois frequentemente fazem campanhas com um mix bem integrado on e offline. Parece que apenas as empresas analógicas, talvez por desconhecimento dessas minúcias tecnológicas, não perceberam isso.

Interessante é quando a publicidade traduz de forma criativa uma tendência ou percepção, tratando do assunto de maneira leve e descontraída ao mesmo tempo em que estimula uma reflexão. Isso pode ser visto na ótima campanha da Cerveja Skol. Clique e assista: ¨Redondo é sair do seu quadrado”.

E você, acredita estar sendo envolvido pelo filtro bolha? Suas opiniões seriam diferentes caso essa tecnologia não existisse?

“Nunca tenha certeza de nada, porque a sabedoria começa com a dúvida.”

Freud