Prepare sua empresa para correr na areia.

 

Este é o sexto artigo sobre inovação e uso a corrida como metáfora para discutir a imprevisibilidade do atual ambiente de negócios.

Uma atividade física que eu pratico é a corrida. Costumo correr de forma alternada, alguns dias na areia da praia e outros na calçada.

Observando as exigências de cada uma dessas formas de corrida identifiquei muitas analogias com a trajetória das empresas e os desafios a que estão submetidas na atualidade.

Acontece que quando se corre na calçada em geral temos mais velocidade e estabilidade, conseguimos correr mais tempo e maiores distâncias. Por que isso acontece? Simples, como o piso é firme e previsível desenvolvemos melhor, temos mais impulso e menos resistência, assim a corrida flui nos permitindo ir mais longe com menos esforço.

Já na areia a coisa é bem diferente. O chão é movediço, irregular e cheio de surpresas, o que acaba exigindo muito mais atenção, qualquer descuido pode resultar em uma queda sem contar os riscos de ter algo que perfure ou corte o pé escondido abaixo da superfície.

Como se isso não bastasse, a areia fofa exige muito mais esforço em cada passada, a energia necessária para manter o ritmo é muito maior e claro, o desgaste resultante também.

Quem corre na areia sabe que gastamos mais tempo olhando para o chão, justamente para evitar o inesperado, mas mesmo assim, volta e meia somos surpreendidos, tropeçamos ou perdemos o equilíbrio.

Em um mundo mais estável e previsível, as empresas estão “correndo” na calçada.

Toda empresa naturalmente procura o máximo desempenho. Quanto menor a energia gasta para chegar ao resultado melhor. Para isso busca-se otimizar processos, reduzir burocracia, investir em tecnologia, treinar os colaboradores, etc.

O mantra sempre foi fazer mais com menos. A busca pela eficiência a todo custo. Manter-se no piso estável da calçada a qualquer preço.

Toda organização trabalha nessa direção e atingir a máxima eficiência é a garantia de uma jornada mais tranquila e previsível rumo ao sucesso, certo?!

Errado! Para quem ainda pensa assim, as notícias não são boas. A verdade é que o ambiente de negócios é cada vez mais movediço e por mais azeitada que estejam as engrenagens, não há garantias de uma jornada tranquila.

Claro que eficiência operacional é sempre bem-vinda, mas há cada vez menos trechos de calçada e a corrida é cada vez mais na irregular areia fofa.

Na verdade, empresas eficientes na concepção mais tradicional da palavra, são justamente as mais ameaçadas, pois a busca incessante por normalidade e previsibilidade acaba desviando a atenção do que realmente importa.

Grandes corporações que cresceram e prosperaram na “velha economia” estão sofrendo para acompanhar a dinâmica alucinante da nova era disruptiva. Com processos excessivamente rígidos e regulados, essas corporações não conseguem a agilidade e flexibilidade necessárias para responder à velocidade das mudanças e seu tamanho em geral se traduz em peso excessivo e consumo desproporcional de energia para realizar as necessárias mudanças de rumo.

Gigantes estabelecidos tem sido desafiados e vencidos por pequenas startups com modelos de negócios inovadores e enorme poder de transformação. Setores inteiros tem sido dramaticamente transformados deixando para trás empresas que dominavam seus respectivos segmentos de maneira muitas vezes hegemônica.

Basta lembrarmos de exemplos recentes como locadoras de DVD, Fabricantes de celulares como Blackberry e Nokia e Grandes gravadoras.

Setores até então inabalados agora começam a sentir o chão menos firme a exemplo do setor bancário ameaçados pelas fintechs, a indústria automobilística baseada em motores a combustão, o setor de telefonia, entre outros.

As organizações de sucesso no atual cenário, são aquelas mais aptas a correr na areia, e capazes de se adaptar mais rapidamente às irregularidades do percurso. São mais leves e ágeis e recuperam-se muito mais velozmente quando perdem o prumo.

Para isso é preciso um mindset diferente, aceitar a imprevisibilidade como a nova regra, reduzir dramaticamente a hierarquia e a burocracia, dar total prioridade à meritocracia e a transparência e tomar consciência que tamanho não é mais documento.

Além da habilidade em lidar com a mudança é preciso ter a capacidade de erguer o olhar e enxergar adiante. O cenário não é só de ameaças, há também uma bela vista e boas perspectivas para quem sabe aproveitar a corrida.

 

“A única constante é a mudança”

Heráclito de Éfeso. 535 a.C.