Se você já perdeu uma oportunidade para alguém menos apto.

Se viu alguém que não merecia ser promovido em seu lugar.

Se perdeu um cliente para alguém que era “amigo” do dono, mesmo tendo uma proposta superior.

Se foi demitido, apesar da boa performance, para dar lugar a alguém indicado pela chefia.

Se sua participação em uma concorrência ou licitação foi inviabilizada por critérios que favoreciam a quem tinha melhor relacionamento com o licitante.

Se sua proposta foi preterida, mesmo sendo a mais completa e a mais competitiva, apenas por que o concorrente era maior ou mais famoso.

Então esse artigo é para você!

Essas situações listadas acima podem não ter atingido a todos, mas certamente, quem nunca foi vítima delas conhece alguém que já passou por algo parecido.

Talvez esteja se perguntando se já passei por isso e a resposta é sim. Mais de uma vez, mais de uma destas opções acima e com certeza mais vezes do que gostaria.

A frequência com que nos deparamos, direta ou indiretamente, com esse tipo de distorção nos dá a medida do quão profundo é este flagelo em nossa cultura.

Quando nos perguntamos as razões do Brasil ser um país tão desigual e injusto, são muitas as tentativas de explicação, desde a nossa origem como colônia de expatriados, até a sina latino-americana de governos populistas.

A lamentável tradição brasileira de conceder compensações ou privilégios por influência, amizade, parentesco etc., sem levar em consideração valores como competência, merecimento e honestidade é profunda e até patológica.

Os efeitos disso são absolutamente nefastos para as pessoas, empresas e para a nação.

A fraca tradição da meritocracia favoreceu e favorece a prevalência da mediocridade e da incompetência, vide nossos “representantes” nas esferas de poder. E ao invés de girarmos um progressivo ciclo virtuoso, nos afundamos em um loop interminável, um perverso ciclo vicioso que dificulta em muito a nossa evolução como sociedade.

Quando as oportunidades são negadas a quem merece, há prejuízo para todos os lados. Aqueles que tem competência se frustram, as empresas se tornam ineficientes, os clientes insatisfeitos, a sociedade enfraquece seus valores e o país perde competitividade com consequente aumento da desigualdade.

Mas numa visão realista, precisamos reconhecer que no discurso recorrente do sucesso como consequência do esforço e da competência, é quase um tabu admitir que nem sempre as coisas são como deveriam ser. Esse discurso por vezes utópico esbarra numa dura realidade cheia de distorções.

Não há nada de errado em acreditar que o sucesso vem como consequência da dedicação e do trabalho. Essas são realmente condições necessárias em um ambiente competitivo e cada vez mais exigente como o atual.

A questão é que em nosso país estas premissas são frequentemente relegadas a segundo plano em favor do clientelismo, nepotismo, favoritismo e tantos outros “ismos”.

Se você chegou até aqui, em alguma medida se sensibilizou com esta visão. E por isso eu desejo compartilhar uma boa notícia.

Nunca tivemos tantas oportunidades de mudar isso como agora. E para que isso aconteça só depende de você. Repito. Depende de você!

Dentre as razões que propiciam esta oportunidade de mudança estão:

A decadência da hierarquia. As empresas com maiores chances de se perpetuar são aquelas em que a pirâmide organizacional vem se achatando em direção a horizontalidade. Menos hierarquia e menos burocracia favorecem a inovação, competitividade e inevitavelmente o mérito.

Para os indivíduos, as novas tecnologias vêm permitindo conexões transversais, onde pessoas antes inacessíveis e separadas por camadas sociais e hierárquicas, agora se comunicam motivadas por interesses comuns. Assim um técnico, de dentro ou de fora, pode contatar o CEO de uma corporação e apresentar suas ideias sem intermediação.

Isso é o resultado do acesso cada vez mais universal à informação que proporciona mais poder de transformação ao alcance de todos numa escala sem precedentes.

Também os processos (administrativos, produtivos, computacionais, etc.) vêm se tornando mais integrados, interdependentes e complexos, o que dificulta cada vez mais o seu monitoramento e controle pelos tradicionais centros de poder.

Para manter as engrenagens em movimento, mais indivíduos altamente capacitados são necessários. O empoderamento de uma nova sociedade do conhecimento vem diluindo o controle e democratizando as oportunidades. E você que está lendo isso agora é parte disso.

O poder está com você. Exerça-o!

É fundamental uma tomada de consciência seguida pela tomada de atitudes. Os tradicionais detentores do poder estão cada vez mais dependentes dos detentores do conhecimento, mas a inação destes perpetua as estruturas vigentes em detrimento do merecimento.

Mas o que fazer para mudar isso?

Não tenho todas as respostas e gostaria muito de abrir este debate para participação geral. Vou listar aqui alguns pontos para provocar uma reflexão, mas convido todos a pensar e propor estratégias que proporcionem oportunidades mais justas para quem realmente merece.

Para uma realidade mais meritocrática precisamos:

– Fortalecer e favorecer o “networking do bem”. Aquele baseado na competência, merecimento e honestidade;

– Resistir a pressões hierárquicas que promovam injustiças;

– Em relação aos colaboradores: Estabelecer critérios de reconhecimento claros e transparentes elaborados de forma participativa e aplicados criteriosamente.

– Em relação aos parceiros e fornecedores: Ter uma política de “portas abertas” não discriminatória e julgar principalmente pelas competências e não pelo tamanho ou influência da empresa.

– Nas instituições é necessário ter transparência total e intolerância ao malfeito. Só através da rigorosa cobrança por eficiência e da punição à inépcia, teremos a valorização do mérito e da competência.

– Fazer uma autocrítica frequente e verificar se não repetimos esse padrão quando estamos em posição de decisão.

Mas é fundamental entender que além de insights são necessárias mudanças de atitude. Sem uma tomada de posição, sem iniciativa, sem vontade e coragem de enfrentar o Status quo, nada acontecerá.

Se acredita nessa nova realidade, o convido a participar ativamente do processo. Compartilhe este artigo, reflita, discuta, dê sua opinião e claro, faça a sua parte para que essa nova era da meritocracia se estabeleça em nosso país.

“A injustiça que se faz a um, é uma ameaça que se faz a todos. “

Montesquieu